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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Os dois últimos dias...

A noite de sábado para domingo deve ter sido a que dormi sob mais efeito de álcool por aqui, mas tava bem, principalmente depois de comer um pizza e tomar Coca antes de dormir. Aliás, tomar Coca não, Pepsi. Por que isso é importante? Porque lembrando no dia seguinte do que aconteceu eu ri muuuuuito. Vejam o que uma pessoa bêbada e sem memória pode fazer: cheguei e fui tomar Coca Zero, que tava na geladeira, esperando a pizza. Tomei o primeiro gole e pensei "se eu colocar no congelador, enquando a pizza chega ela vai ficar maravilhosamente gelada". Coloquei lá. A pizza chegou, veio de brinde uma Pepsi. Fui até a geladeira e não achei a Coca Zero. Intrigado, procurei pela casa inteira, até que desisti e tomei a Pepsi. Isso mesmo, eu esqueci onde tinha colocado a Coca! Acordei às 5h pra ir ao banheiro e lembrei dela. Tirei do congelador e tomei um gole do que não tava congelado ainda... Olha que absurdo?! haha

Bom, depois da Coca voltei a dormir, rindo sozinho. Volney, o aniversariante do dia, veio nos acordar com seu típico bom humor matinal (pra ele o dia começaria assim que sai o sol). Disse que precisávamos acordar pra ir pra Uruçuca, onde aconteceria um almoço pelo aniversário dele. Ainda era 7h30 da manhã e a Globo passava Bahia Rural.

Em Uruçuca andamos pela cidade tempo suficiente pra eu finalmente aprender os caminhos de um lugar para o outro, ainda que continue errando. O almoço era na casa de Mirinha, a mãe do aniversariante. Entre os presentes, Antônio, avô de Thomaz e ex-marido dela, com a esposa (sim, eles todos tem um ótimo relacionamento!), Harley e Ivana, irmãos de Volney, a família de Célia, prima de Volney e dona Vanda, amiga de Mirinha.



Um lado da sala...


... e o outro!

A comida do almoço me reservava uma feliz novidade: Pitu! É bonito e aparentemente complicado como o Caranguejo, mas é bem mais fácil de comer. A casca das patas dele quebra no dente, sem precisar de martelo. A carne é maravilhosamente gostosa, e o rabo parece um camarão gigante, no gosto, na textura e no formato. Também tinha catado de caranguejo (que é o caranguejo já fora da casca - agora que conheço o catado não sei porque alguém comeria o caranguejo inteiro!), uma fritada de alguma coisa do mar também, arroz, salada, carne de sol e feijão de moqueca.


Uma das panelas de pitu

De sobremesa, mais novidade pra mim, e essa não é regional: ambrosia. Um doce-de-leite com frescura, como diria o Thomaz. Bem gostoso! Na sala, um animado papo depois da comida, que girava em torno de Bruno do Flamengo ("o time do Flamengo é bom, o que mata é o goleiro", e por aí vai...), a proibição das palmadas educativas, e novidades sobre pessoas conhecidas deles. E isso é muito engraçado pelo tamanho da cidade. Quando aparece na conversa um Fulano, que alguém não sabe quem é, logo vem a referência, "ah, ele é filho de Sicrano e cunhado de Beltrano". Isso tudo tratando só pelo primeiro nome, e todo mundo conhece!

A noite mais uma experiência nova: fomos ao culto com os pais do Thomaz na Igreja Batista. Como ele mesmo disse brincando pra mãe: "eu não posso recusar, porque sou seu filho, e Iuri também não porque é o hóspede". Quando o assunto é religião, penso que é algo não se discute, portanto não vou fazer comparações, só me limito a dizer que fui muitíssimo bem recebido como convidado. Cada um encontra Deus onde achar que deve, e o mais importante são as atitudes das pessoas, e não a religião que seguem.

Falando em bem recebido, fomos depois jantar na casa de Genílton, amigo da igreja, junto com um pastor visitante, de Brasília, e o pastor Pedro. Gente boa, muito simpática, e tivemos altas conversas sobre futebol (de que me livrei logo das brincadeiras, afinal não sofro do mesmo mal que eles, que é o futebol carioca), jornalismo e sobre política, que foram as mais animadas. Animada principalmente pra mim, já que o coro ali era pela companheira Dilma. Ah sim, e o cardápio me trouxe mais uma novidade, farofa de banana, muito boa como o resto das coisas que comi por aqui.

Continuando na comida, desde que cheguei percebi que às vezes me deparava com um sabor meio adocicado que eu não gostava na comida, principalmente na salada. Mas era algo discreto. Até que hoje no almoço senti o tempero no arroz de Cinira, e consegui encontrar a "plantinha". Perguntei o que era e todo mundo na mesa sorriu. "Nenhum paulista gosta de coentro, né?". Claro que ninguém achou que eu realmente não gostava, afinal comi horrores e tudo por aqui tem coentro, mas realmente não gosto tanto. Percebi claramente o que era hoje porque a Cinira gosta muito, e coloca pedaços grandes na comida. Soube também que o paladar do paulista com o coentro é diretamente proporcional ao do baiano com a salsinha, que pra mim já é imperceptível e pra eles é forte. Interessante, não?

Depois do almoço fomos ao Mercado de Artesanato comprar mais souvenires. Aliás, esqueci de tirar foto desse mercado e também do mercado municipal daqui, que é um caos e muito maior que o de Piracicaba. Passamos parte da tarde na Lan House e no fim do dia fomos na Barrakítica, que é, como o nome indica, a junção das palavras barraca e raquítica. O bar/restaurante é da década de 80, um dos mais tradicionais da cidade e que nunca fechou (diferente do Vesúvio, que durante a crise do cacau foi afetado junto com a economia da cidade e fechou por alguns anos). No cardápio tinha de tudo: peixes, pratos à la carte, pizza, porções e comida japonesa. E pra não dizer que não comemos de tudo MESMO, arriscamos a comida japonesa. Feliz escolha, a de lá era muito boa! E olha só: na Barrakítica não tem Nova Schin... tomamos Skol mesmo.

Esse post, começou a ser escrito na tarde de ontem, em Ilhéus, e concluído agora já aqui em Piracicaba, onde já estou. De repente faço um post síntese em um dos dias dessa semana. Agora, volto à rotina de Piracicaba. Quer dizer, não bem à rotina, mas à rotina de férias em Piracicaba...



Fechem portas e janelas!

Essa é a palavra de ordem quando o prato é pitu (assim sem acento, o acentuado é a cachaça), quem experimenta gosta e quem gosta é viciado. Por ser um prato caro e difícil de encontrar, as oportunidades que se tem devem ser aproveitadas da melhor maneira possível, por isso tome seis quilos do bicho pra dentro.

O catado de caranguejo é uma coisa que eu tinha certeza que o Botão ia gostar, uma vez que essa é a criatura mais adepta à praticidade do planeta. Mas eu sou a favor de quebrar o bicho pra comer, além da gordura (descartada no catado), tenho a sensação de que é um outro prato completamente diferente. Vai saber.

O tempero é, de longe, a maior unanimidade entre paulistas. Nenhum deles gosta do tal do coentro! Exceto uma ou duas pessoas. Veja lá, meu amigo passou por experiências gastronômicas inacreditáveis, do sarapatel de Maria Peixera ao Pitu de dona Cinira e tropeçou com o bagulho mais imperceptível (na minha opinião) possível.

No mais, o aniversário de meu pai foi bem legal, a conversa e a risada foram predominantes. Na igreja, tudo como o esperado, uma galera muuuito gente boa e sempre "casa-cheia", também não discuto muito fé, mas acredito que os religiosos tem construções de discurso fantásticas.

Nesse ponto eu entro no documentário citado no post anterior; é incrível a coragem e capacidade de liderança do pastor do documentário. Tem no youtube e quem quiser pode ver, vejam também notícias de uma guerra particular, igualmente bom. Creio que ver esse conteúdo nos dá uma nova ótica sobre a temática da violência, emendo aqui uma recomendação de leitura: Abusado, Caco Barcellos. Genial.

Ouçam Black Alien, Funkeiro e Racionais. Som de suburbano, pobre, brasileiro.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Quero não, obrigado!




A manhã de ontem começou muito mais cedo que o normal. Acordamos às 4h pra sair de Ilhéus às 5h. Pegamos estrada rumo ao extremo sul da Bahia, numa viagem de pouco mais de quatro horas até Porto Seguro. O trajeto, cortando a espessa neblina da região montanhosa, nos levaria da região cacaueira, onde ficam todas as cidades de que falamos até agora, até a costa do descobrimento, onde ficam cidades como Eunápolis, Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Trancoso e Arraial D’ajuda.

Deixamos Volney no assentamento Terra à Vista, próximo a Camacan, que fica pouco depois de Itabuna, vizinha de Ilhéus. Falando em assentamento, a região é povoada deles, assim como de acampamentos do MST, que é bastante forte por aqui.

A BR-101 – rodovia federal que vai do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, e de que faz parte a via Dutra, nosso caminho para o Rio de Janeiro – só tem uma pista de ida e uma de volta, como as outras estradas que conheci por aqui. A mudança de regiões que falei foi bastante ilustrativa no caminho. Enquanto Cinira me explicava que a região do extremo sul tem como bases da economia a pecuária e as plantações de eucalipto, a neblina que tomava conta daquela região montanhosa deu uma trégua, como num estalo, e pude perceber a mudança imediata de paisagem ao ver de um lado uma floresta de eucaliptos e do outro uma grande área de pasto.


BR-101: pista simples e vista privilegiada

Ao chegar a Porto Seguro, deixamos Cinira em Coroa Vermelha, onde ela daria o curso para os índios de uma tribo Pataxó e voltamos para Taperapuã, a praia mais turística da cidade, para escolher uma das barracas para ficar. Sentamos no Tôa-Tôa, a mais badalada. O movimento de pessoas era pequeno, típico de inverno na praia, ainda que o clima fosse de verão, sem uma nuvem no céu e com muito sol e calor.

Aos poucos o clima de inverno foi sumindo e muitos turistas começaram a chegar. Já não tinham mais mesas disponíveis ao nosso redor e as pessoas já começavam o processo de colocar toalhas e cangas no chão ou em cadeiras mais próximas do mar (o que nos deu visão privilegiada de duas catarinenses que olha... Bom, melhor deixar vocês verem, afinal o garçom que ficou nosso amigo tirou foto delas fingindo que era da gente). Junto com os turistas que acordavam tarde chegou também o povo que comanda o palco da cabana, o DJ que comanda o som e a companhia de dança que ensina a galera. Já tinha estado em Porto antes, e a diferença do que vi ontem para o que vi no verão não era tão grande viu...


"Essas mulheres não são de verdade não", Volney

O problema é que com todo esse movimento, chegou também o movimento que mereceu destaque no título desse texto, os ambulantes. “Quero não, obrigado”deve ter sido dito por nós umas 1.342 vezes no tempo em que ficamos sentados ali. Tatuagem de Henna, trança, tererê, ostra viva, artesanato, óculos escuros, empadas, camarão no espeto, queijo coalho, tudo com as mais criativas táticas de convencimento.


Bora fazer o passeio de Banana aí moral?

O cara da tatuagem de Henna pegava no braço e dizia “vamos botar um tribal nesse braço forte patrão?”, ou então “me deixa só mostrar meu trabalho aqui...”, os da ostra faziam boas brincadeiras, que iam do velho “precisa de um Viagra aí?” ao inusitado “já chupou uma coisa viva?” e os dos camarões no espeto diziam que estava fresquinho, assim como as tias das empadas, mas os mais engraçados eram, de longe, os das tranças. Thomaz, com seu cabelão e seu Ray Ban, foi chamado de empresário umas três ou quatro vezes (o que por sinal nos levou à questão de quem seria eu: um gigolô, um segurança talvez?), e teve um cara que chegou e disse “e aí Maradona, bora fazer esse cabelo?”. Firmes, resistíamos com a frase do título.

Almoçamos casquinha de Siri e batata frita, acompanhados da Brahma (sim, lá tinha bastante) que apreciamos durante toda a manhã na mais paulista das cidades baianas. Enquanto isso, paulistas, mineiros e gaúchos aprendiam a dançar axé na pista atrás de nós com um professor da casa. O professor, por sinal, dominou a cidade com seu DVD que ensina os passos. Não dei muita importância enquanto ele anunciava a venda, de cima do palco, a R$ 10. Só soube mesmo do que se tratava quando chegamos à famigerada Passarela do Álcool, à noite, e só via na TVs das barraquinhas de CD e DVD pirata os mesmos carinhas de short de axé verde limão dançando Rebolation.



Galera, agora vou tocar pra vocês uma música do Parangolé...


Pagamos a conta de turista da barraca e fomos dar uma volta pela cidade esperando a hora de buscar Cinira. Comprei alguns presentes e uma Folha de S. Paulo que não li (mas o Thomaz leu) porque, ao chegar à pousada eu só queria saber de dormir, afinal não consigo dormir em carro (porque geralmente não caibo) então tava em pé direto desde às 4h da manhã. Capotei até a hora de sair pra jantar, quando aí comprei mais presentes, uma camiseta pra mim e um sorvete na sorveteria do coelho anão.

Vida difícil, realmente muito complicada...

No caminho para a pousada, que ficava em algum lugar misterioso – sério, nos perdemos TODAS as vezes em que procurávamos por ela pra voltar -, saímos na avenida um pouco antes de onde gostaríamos. Para chegar no lugar certo era necessário fazer um retorno ou, como de costume em todo lugar no Brasil, passar por cima das tartarugas e cortar no lugar proibido. Todos concordaram que dava pra ir depois que o paulista aqui disse “ah, não deve ter guarda aqui”. Foi passar sobre a tartaruga e ver a porra do guarda mandando encostar! Cinira deu uma de João-sem-braço, disse que não sabia que não podia e o guarda disse que ia ficar só na instrução. O detalhe é que, por pura sorte, a carteira dela tinha vencido há apenas 11 dias, o que ainda dava a ela o direito de usá-la. Dezenove dias depois e o carro teria sido preso...

Passados os percalços, fui dormir com aquele ardor gostoso de quem tomou sol irresponsavelmente nas costas e a sensação de estar em Porto Seguro no verão.
Cinira nos acordou antes do café da manhã da pousada ser servido para levá-la onde ela daria o curso novamente. Voltamos, comemos e dormimos até quase meio-dia. Sim, capotamos e não fomos pra praia mais. Parte disso é vagabundagem nossa, claro, mas a outra parte é a mais pura verdade sobre a cidade: a praia é maravilhosa? É, claro, mas nada fora do comum, nada que eu não encontre em São Paulo e, mais que isso, que já não tenha visto melhor, como em Serra Grande, para não ir longe no exemplo.


Quando tomamos coragem de levantar da cama fomos ao Centro Histórico. Concordamos em não contratar o guia turístico, que para um casal (que é como Thomaz e eu seríamos caracterizados pelo tarifário), custava R$ 26. Quando descemos do carro, no entanto, ele começou a falar e nos levar pelo lugar. Como típicos turistas, acompanhamos o cara até o fim e depois ouvimos ele dizer o preço. Bom, pelo menos ele não cobrou cachê pra aparecer no vídeo que fizemos e que vai pro YouTube (e vem pra cá) assim que formos a uma Lan House novamente. (Como postamos da casa de Ilhéus e usando a conexão do celular, melhor não tentar colocar o vídeo agora...)


Primeira cadeia: paredes com 1m de espessura!

Vimos as primeiras igrejas, a primeira cadeia, a pedra fundamental, o mirante, enfim, tudo que turista tem direito. Comi em Porto Seguro meu primeiro acarajé vendido por uma baiana caracterizada, e que delícia de acarajé! Foi o melhor que comi até agora, mas o sabor e a fantasia da baiana têm preço, a iguaria me custou R$ 5, o que é mais de 100% mais caro que a média, como já sabe quem acompanha esse blog desde o começo...


O guia nos mostrou as casas, que são todas tombadas como patrimônio histórico, e explicou coisas interessantes sobre elas. Cada uma tem uma cor diferente porque isso de colocar número nas casas é uma coisa mais recente. No início eu te diria que moro na rua X na casa vermelha, e não no número 50, e mais, casas da mesma cor pertenciam à mesma família. As casas foram passadas de geração em geração e, quem não se desfez delas antes de serem tombada e a cidade virar turística se deu bem: Malu Mader, a família de José Serra e Gilberto Gil estão entre os nomes que compraram, a preço de ouro, uma daquelas casinhas.


A "casinha" de um turista americano, vizinhança pobre, coitado..

De volta a Ilhéus, agora é esperar o show de amanhã, aquele do suspense todo. A festa, tradicionalíssima, chama-se Trivela, e é promovida pelo Asa de Águia. Já estamos com a camiseta da festa em mãos, agora é curtir!

Ah sim, e como o baiano sempre diz que Porto Seguro é a cidade menos baiana da Bahia, hoje não aprendi nenhuma palavra nova do baianês. O conhecimento do dia viria das palavras eira e beira, se eu não tivesse aprendido isso na escola. O lance é que a casa do delegado lá no Centro Histórico tinha tribeira, e disso eu nunca tinha ouvido falar.. haha



Praia Fake, galera fake e uma baiana de verdade

Eu não sou um grande fã de Porto Seguro, quem me conhece em São Paulo sabe que eu sou da opinião de que essa é a menos baianas de todas as cidades da Bahia. O que não quer dizer que não tenha curtido ir pra lá, tomar aquela cerva na praia, ser confundido com turista o tempo todo e ser chamado de Maradona por um ambulante. Aliás, o tempo inteiro eu e o Botão mais cabeçudo da terra temos discutido o que nós podemos parecer pra essa galera nos lugares, ríamos com a impressão de casal gay que poderíamos passar, mas depois de encontrarmos com um casal genuinamente do gênero na praia concluímos que não parecemos (nem de longe!) homossexuais em lua-de-mel.

Voltando a Porto, a sensação que tenho é que tudo ali é uma engambelação absurda, no sentido de artificialidade da coisa. Aquele povo dançando no palco, um bando de gente te oferecendo qualquer coisa pra comprar, um monte de índio branco, preto e até amarelo, mas vermelho mesmo é um ou dois.

Trocando em miúdos, adorei ter ido a Porto, mas não escolheria a cidade para definir como um local da Bahia, é uma cidade festiva, cheia de gente bonita, repleeeta de história, mas sem identificação com o estado que este blog visa discutir. Porém (ah porém!), foi lá que vimos a nossa primeira vendedora de acarajé vestida de baiana, talvez por uma exigência, talvez por jogada de marketing, mas o fato é que foi a primeira. E nem era uma caracterização completa, era só o turbante e uma saia, a blusa mesmo era normal.

Considero uma pena que isso tenha acontecido, pois na minha infância era comum ver baianas comandando as bancas; paciência, ninguém é obrigado a cultuar uma religião em nome das vendas, exceto em Salvador, pois para não descaracterizar a imagem do acarajé os vendedores são obrigados a usar o traje ligado à religião africana.

Um fenômeno que me incomoda, e muito, é o tal do "Acarajé evangélico", pois é. Aqui tem uma galera que põe esse nome no alto da barraca e isso atrai clientes, notei até minha mãe (evangélica, mas não é nem de longe radical com religião. Verdade) dando certa preferência a uma banca que levava a etiqueta sagrada. A sensação que dá é que existe um prazer em formar guetos, acarajé não fala, não pensa e nem tem religião! No passado era uma oferenda aos santos africanos, mas não é uma receita ensinada por um orixá, é somente uma comida e ponto.


Bom, pra mim já deu desse papo cabeça, eu tô aqui pra comentar e cornetar, portanto retomemos essa árdua tarefa. Nos últimos dois dias aprendi ou conhecí tanto quanto o Botão, portanto não tenho grande moral para resenhas mais fortes. Enquanto isso um beijo e um queijo para todos.

Ouçam "La belle de jour" de Alceu Valença, tudo de Geraldo Azevedo e nunca, nunca procurem a versão de Zé Ramalho para Bete Balanço, Cruzes!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Cultura em Ilhéus

Ontem acordamos na hora do almoço, aquele que seria na casa de dona Mirinha, a outra avó do Thomaz, mãe de Volney. No cardápio, carne de sol e pirão de leite novamente, um delicioso pudim de sobremesa, e a novidade do dia: galinha ao molho pardo. Maravilha!

O engraçado desse prato foi que anteontem tinha ouvido a história, da boca de Dr. Ronaldo, desse prato que me aguardava no almoço. Cabe contar a vocês: o filho dele, Ronaldinho, tio de Thomaz que ainda não conheci, quando morava em São Paulo, decidiu fazer a tal galinha para o pessoal que morava na república dele. Lá estava ele fazendo o molho pardo quando, ao misturar o sangue da galinha (base do molho), com vinagre, obteve um caldo negro, cor que tem o molho quando pronto. Eis que um dos que moravam com ele, ao ver o milagre da mudança de cor, saiu gritando "macumba, macumba!", e não houve jeito de fazê-lo comer a galinha. Olha, azar o dele, porque é realmente boa!

Ficamos com dona Mirinha assistindo a um capítulo "inédito" de Sinhá Moça, como diria Galvão. Soubemos que a vinda pra Ilhéus tinha sido cancelada, porque a casa ainda não tinha fogão. Mas pra que eu e Thomaz precisamos de fogão? Viemos pra cá apenas nós, de carona com um colega de Volney.

À noite, minha primeira experiência com moto-táxi, porque estávamos atrasados para o teatro, beirou o desastre. Se minha cabeça fosse apenas proporcional ao corpo, já seria grande demais pro capacete. Mas ela faz ainda questão de ser um pouquinho maior, e só conseguia ver por metade da viseira daquele capacete que, se eu caísse de cabeça, não protegeria nada. Fui na garupa do menor dos motoqueiros, e Thomaz na outra. Não tenho costume de andar de moto, a última vez que andei deve ter sido há uns bons anos. Quase tive cãibra de segurar naquela garupa. Sorte que foram poucos os minutos de horror.

Passada a experiência traumática, fomos à Casa dos Artistas, o Ponto de Cultura que comentei. No teatro popular, ontem era dia de Teatro a 2, em alusão aos R$ 2 que custava a entrada. A peça Teodorico Majestade - As Últimas Horas de Um Prefeito, do Teatro Popular de Ilhéus, grupo residente da Casa dos Artistas. Soube agora, ao procurar na internet que a peça, escrita e dirigida por Romualdo Lisboa, é apontada como responsável por revolucionar o teatro daqui, já teve temporada em Salvador e vai ainda esse ano ao Rio de Janeiro.

Lá fora, o cartaz do espetáculo. Coisa de primeira

A comédia fala de um prefeito corrupto, Teodorico Majestade, que rouba aos montes na cidade fictícia de Ilha Bela, sempre com a desculpa de querer recuperar o dinheiro investido na campanha, recheada de compra de votos, como se a reivindicação fosse legítima.

Cabe aqui comentar o Ponto de Cultura em si, que é muito parecido com os de Piracicaba. O tipo de gente que freqüenta é muito semelhante, formado por estudantes, artistas, jornalistas, professores e interessados na cultura em geral. Apesar de apresentada exaustivamente por aqui, a peça encheu os 50 lugares do teatro, e a qualidade do grupo e da casa são realmente impressionantes.

Como em Piracicaba, finalizado o espetáculo várias pessoas foram cumprimentar os artistas, que são locais, como percebo acontecer em todas as apresentações em palcos mais alternativos que já vi. Concluí que a gente ligada à cultura tem rosto parecido em todos os lugares, e quando comentei isso com o Thomaz ele acrescentou rindo: "com pequenas variações no bronzeado..."

Do teatro, fomos ao Vesúvio, aquele que coloquei foto no dia da visita turística em Ilhéus. Por lá comemos bolinhos de queijo, charque (carne-seca), bacalhau, e quibes, além de derrubar uma torre de chopp, neste que foi o primeiro lugar em que comi/bebi por aqui e me cobrou preço de turista, já que em Uruçuca era tudo muito barato. Bela noite ao som de músicos também locais, que tinham repertório com músicas realmente muito boas, como Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Belquior, e aquelas músicas que sempre tocam em bar, e a estranha mania de começar as canções pelo refrão.

Saindo dali, mandamos um sorvete Cruz Vermelha no Ponto Chic e voltamos caminhando pela praia, não sem antes sentar um pouco na areia para admirar a brisa. Noite agradabilíssima. De volta ao apartamento, terminei Pastores da Noite, em que Jesuíno Galo Doido morreu, e comecei a ler O Anjo Pornográfico, e descobri que, embora não dê pra comparar, o Ruy Castro é gostoso de ler como o Jorge Amado. Ah sim, antes de dormir ainda perdi pro Thomaz no xadrez duas vezes, em um jogo disputado e uma lavada.


Thomaz e o Cruz Vermelha

Agora estamos de boréstia aqui por Ilhéus, e vamos à noite ou amanhã cedo pra Porto Seguro, onde a mãe do Thomaz vai dar um curso para uns índios em Coroa Vermelha. Devemos ficar na cidade até sexta. Pra quem não sabe, de boréstia é o mesmo que de boa, e é a expressão baiana do dia. Com ela acrescento que o povo aqui fala muito "véi", que deve ser minha mania por um tempo depois que voltar, e que é costume chamar os outros de "moral". Do tipo: "Vamos pra onde moral?" (moto-táxi), ou "Tem um trocado aí moral?" (pedinte).

Agora tou ouvindo Cartola na Lan House enquanto escrevo a postagem. Tá um dia lindo lá fora e acho que vou tirar foto da praia enquanto o Thomaz escreve o cometário dele, pra vocês saberem do que tô falando...

A praia ao lado da Lan House, fotografada enquanto era escrito o comentário abaixo

Beijos


Um "banho de civilização" em Ilhéus (por Thomaz Fernandes)

Já havíamos visto o anúncio da peça e queríamos vê-la sem mesmo sabermos exatamente do que se tratava. Além do que o mais jovem entre os Botões disse sobre a história, pude identificar uma crítica ao ex-prefeito de Ilhéus (Ilha Bela), Valderico Reis (Teodorico Majestade, rá). Apesar de um tanto engajada, foi fantástico notar que ela pode ser apresentada a todos, mesmo os que não conhecem a história (haja vista o post do Botão).

Ontem conhecemos uma mulher que era surda e recuperou a audição por meio de prótese, eu falava com ela enquanto Iuri acompanhava ansiosamente o plano de Sinhá Moça para invadir a senzala da fazenda Araruna com o Irmão do Quilombo, rs.

Ontem conversávamos sobre a delícia que seria morar em Ilhéus, enquanto andávamos na praia da avenida. Uma pena que o lugar não oferece muito espaço para jornalismo, seria ótimo transformar aquela paisagem em cotidiano novamente e ganhar uma grana e sentir tesão profissionalmente.

Eu sempre tive um pé atrás com relação a Ilhéus no sentido de vida cultural, mas ontem tive a melhor impressão possível, pois curti um som gostosíssimo, vi uma boa peça que encheu a sala em plena terça-feira chuvosa que tivemos.

A frase mais dita ontem era: "Faltava aqui um par de costelas", maneira singela de dizermos que o lugar seria muito romântico caso houvesse presença feminina.

Além de fogão, a casa ainda não tem TV e ficamos ouvindo a rádio daqui, Gabriela FM, o programa que passava era "LLLooove Sooongs" e enquanto eu detonava Iuri no xadrez, ouviamos Gisele do bairro Conquista dizer para Marcos do Princesa Isabel que ela respeita "a velocidade com que as coisas estão indo, mas preciso de uma aproximação mais íntima, quero penetrar no seu peito", praticamente uma bala de fuzil.

Enquanto ele mata o pobre Jesuíno Galo Doido, leio "o Homem nu", de Fernando Sabino e "O livro dos sonetos" de Vinícius de Morais.

P.S.: Ouçam Gerônimo (o Botão curtiu) "É d'oxum", "Hotel California" e assistam ao documentário L.A.P.A, que eu assisto pelo Youtube enquanto o Botão escreve.