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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Os dois últimos dias...

A noite de sábado para domingo deve ter sido a que dormi sob mais efeito de álcool por aqui, mas tava bem, principalmente depois de comer um pizza e tomar Coca antes de dormir. Aliás, tomar Coca não, Pepsi. Por que isso é importante? Porque lembrando no dia seguinte do que aconteceu eu ri muuuuuito. Vejam o que uma pessoa bêbada e sem memória pode fazer: cheguei e fui tomar Coca Zero, que tava na geladeira, esperando a pizza. Tomei o primeiro gole e pensei "se eu colocar no congelador, enquando a pizza chega ela vai ficar maravilhosamente gelada". Coloquei lá. A pizza chegou, veio de brinde uma Pepsi. Fui até a geladeira e não achei a Coca Zero. Intrigado, procurei pela casa inteira, até que desisti e tomei a Pepsi. Isso mesmo, eu esqueci onde tinha colocado a Coca! Acordei às 5h pra ir ao banheiro e lembrei dela. Tirei do congelador e tomei um gole do que não tava congelado ainda... Olha que absurdo?! haha

Bom, depois da Coca voltei a dormir, rindo sozinho. Volney, o aniversariante do dia, veio nos acordar com seu típico bom humor matinal (pra ele o dia começaria assim que sai o sol). Disse que precisávamos acordar pra ir pra Uruçuca, onde aconteceria um almoço pelo aniversário dele. Ainda era 7h30 da manhã e a Globo passava Bahia Rural.

Em Uruçuca andamos pela cidade tempo suficiente pra eu finalmente aprender os caminhos de um lugar para o outro, ainda que continue errando. O almoço era na casa de Mirinha, a mãe do aniversariante. Entre os presentes, Antônio, avô de Thomaz e ex-marido dela, com a esposa (sim, eles todos tem um ótimo relacionamento!), Harley e Ivana, irmãos de Volney, a família de Célia, prima de Volney e dona Vanda, amiga de Mirinha.



Um lado da sala...


... e o outro!

A comida do almoço me reservava uma feliz novidade: Pitu! É bonito e aparentemente complicado como o Caranguejo, mas é bem mais fácil de comer. A casca das patas dele quebra no dente, sem precisar de martelo. A carne é maravilhosamente gostosa, e o rabo parece um camarão gigante, no gosto, na textura e no formato. Também tinha catado de caranguejo (que é o caranguejo já fora da casca - agora que conheço o catado não sei porque alguém comeria o caranguejo inteiro!), uma fritada de alguma coisa do mar também, arroz, salada, carne de sol e feijão de moqueca.


Uma das panelas de pitu

De sobremesa, mais novidade pra mim, e essa não é regional: ambrosia. Um doce-de-leite com frescura, como diria o Thomaz. Bem gostoso! Na sala, um animado papo depois da comida, que girava em torno de Bruno do Flamengo ("o time do Flamengo é bom, o que mata é o goleiro", e por aí vai...), a proibição das palmadas educativas, e novidades sobre pessoas conhecidas deles. E isso é muito engraçado pelo tamanho da cidade. Quando aparece na conversa um Fulano, que alguém não sabe quem é, logo vem a referência, "ah, ele é filho de Sicrano e cunhado de Beltrano". Isso tudo tratando só pelo primeiro nome, e todo mundo conhece!

A noite mais uma experiência nova: fomos ao culto com os pais do Thomaz na Igreja Batista. Como ele mesmo disse brincando pra mãe: "eu não posso recusar, porque sou seu filho, e Iuri também não porque é o hóspede". Quando o assunto é religião, penso que é algo não se discute, portanto não vou fazer comparações, só me limito a dizer que fui muitíssimo bem recebido como convidado. Cada um encontra Deus onde achar que deve, e o mais importante são as atitudes das pessoas, e não a religião que seguem.

Falando em bem recebido, fomos depois jantar na casa de Genílton, amigo da igreja, junto com um pastor visitante, de Brasília, e o pastor Pedro. Gente boa, muito simpática, e tivemos altas conversas sobre futebol (de que me livrei logo das brincadeiras, afinal não sofro do mesmo mal que eles, que é o futebol carioca), jornalismo e sobre política, que foram as mais animadas. Animada principalmente pra mim, já que o coro ali era pela companheira Dilma. Ah sim, e o cardápio me trouxe mais uma novidade, farofa de banana, muito boa como o resto das coisas que comi por aqui.

Continuando na comida, desde que cheguei percebi que às vezes me deparava com um sabor meio adocicado que eu não gostava na comida, principalmente na salada. Mas era algo discreto. Até que hoje no almoço senti o tempero no arroz de Cinira, e consegui encontrar a "plantinha". Perguntei o que era e todo mundo na mesa sorriu. "Nenhum paulista gosta de coentro, né?". Claro que ninguém achou que eu realmente não gostava, afinal comi horrores e tudo por aqui tem coentro, mas realmente não gosto tanto. Percebi claramente o que era hoje porque a Cinira gosta muito, e coloca pedaços grandes na comida. Soube também que o paladar do paulista com o coentro é diretamente proporcional ao do baiano com a salsinha, que pra mim já é imperceptível e pra eles é forte. Interessante, não?

Depois do almoço fomos ao Mercado de Artesanato comprar mais souvenires. Aliás, esqueci de tirar foto desse mercado e também do mercado municipal daqui, que é um caos e muito maior que o de Piracicaba. Passamos parte da tarde na Lan House e no fim do dia fomos na Barrakítica, que é, como o nome indica, a junção das palavras barraca e raquítica. O bar/restaurante é da década de 80, um dos mais tradicionais da cidade e que nunca fechou (diferente do Vesúvio, que durante a crise do cacau foi afetado junto com a economia da cidade e fechou por alguns anos). No cardápio tinha de tudo: peixes, pratos à la carte, pizza, porções e comida japonesa. E pra não dizer que não comemos de tudo MESMO, arriscamos a comida japonesa. Feliz escolha, a de lá era muito boa! E olha só: na Barrakítica não tem Nova Schin... tomamos Skol mesmo.

Esse post, começou a ser escrito na tarde de ontem, em Ilhéus, e concluído agora já aqui em Piracicaba, onde já estou. De repente faço um post síntese em um dos dias dessa semana. Agora, volto à rotina de Piracicaba. Quer dizer, não bem à rotina, mas à rotina de férias em Piracicaba...



Fechem portas e janelas!

Essa é a palavra de ordem quando o prato é pitu (assim sem acento, o acentuado é a cachaça), quem experimenta gosta e quem gosta é viciado. Por ser um prato caro e difícil de encontrar, as oportunidades que se tem devem ser aproveitadas da melhor maneira possível, por isso tome seis quilos do bicho pra dentro.

O catado de caranguejo é uma coisa que eu tinha certeza que o Botão ia gostar, uma vez que essa é a criatura mais adepta à praticidade do planeta. Mas eu sou a favor de quebrar o bicho pra comer, além da gordura (descartada no catado), tenho a sensação de que é um outro prato completamente diferente. Vai saber.

O tempero é, de longe, a maior unanimidade entre paulistas. Nenhum deles gosta do tal do coentro! Exceto uma ou duas pessoas. Veja lá, meu amigo passou por experiências gastronômicas inacreditáveis, do sarapatel de Maria Peixera ao Pitu de dona Cinira e tropeçou com o bagulho mais imperceptível (na minha opinião) possível.

No mais, o aniversário de meu pai foi bem legal, a conversa e a risada foram predominantes. Na igreja, tudo como o esperado, uma galera muuuito gente boa e sempre "casa-cheia", também não discuto muito fé, mas acredito que os religiosos tem construções de discurso fantásticas.

Nesse ponto eu entro no documentário citado no post anterior; é incrível a coragem e capacidade de liderança do pastor do documentário. Tem no youtube e quem quiser pode ver, vejam também notícias de uma guerra particular, igualmente bom. Creio que ver esse conteúdo nos dá uma nova ótica sobre a temática da violência, emendo aqui uma recomendação de leitura: Abusado, Caco Barcellos. Genial.

Ouçam Black Alien, Funkeiro e Racionais. Som de suburbano, pobre, brasileiro.

Trivela com chuva

Depois da última postagem, de Porto Seguro, dormi como uma pedra. Aliás, uma pedra que ronca e conversa, segundo Thomaz. Chegamos em Ilhéus com chuva e ruas alagadas. Não saberia dizer desde quando chovia e nem com qual intensidade, mas sei que não é exagero a comparação de Ilhéus com o Rio de Janeiro, a "cidade de papel crepon", como definiu Thomaz, pela característica de se desmanchar inteira com uma chuvinha. Na manhã do sábado ainda chovia, e as expectativas para o Trivela, o show do Asa, pra mim eram ruins. Só pra constar, domingo à noite ainda tinham ruas alagadas, apesar de a chuva ter parado...

Não fizemos nada no pedaço de dia que ficamos acordados antes do show, afinal a abertura do portão estava marcada para às 16h. Como o apartamento aqui fica ao lado do Centro de Convenções, onde aconteceu o show, desde às 15h já ouvíamos barulho de música dos carros e de gente se encaminhando pra lá.

Tinha uma galera concentrada na frente, aproveitando para consumir toda a bebida que pudesse antes de entrar, já que lá dentro provavelmente tudo seria mais caro. E de fato era. Tudo bem que fora era MUITO barato: latão de Skol era 3 por R$ 5, e latinha R$ 1. Mais barato que no mercado e geladíssimas! Tomamos umas ali antes de entrar, afinal já eram quase 18h.


A entrada do Trivela, que apesar de ser aqui, tinha patrocínio da Skol

Mal entramos, compramos algumas fichas (lá dentro a Skol custava R$ 3, o que não achei caro pra um show) e o DJ que tocava em um grande palco parou. De repente ouvi os primeiros sons da guitarra de Durval Lélis e estranhei o fato de não ver a banda no palco. O Thomaz apontou para o lugar de onde vinha o som e aí entendi o porquê de a festa se chamar Trivela: eles tocam em cima de uma Trivela/Trio, que anda pelo meio do povo.

O show agita demais e a chuva até ajudou a refrescar, embora eu não seja desses que fica pulando muuuuito em um show de axé. Mas curti o suficiente cantando "O assa arrêa, arrêa, arrêa, arrêa, arrêa!" e "Quebraê, quebraê, olha o Asa aê". Me perdi do Thomaz mais ou menos no meio do show e só nos reencontramos no final. Falando em final, os caras tocam MUITO tempo. O Asa começou tipo às 18h, e parou às 22h! Depois veio a banda Kelsh, do sobrinho do Durval. Depois o Volney perguntou se ele tocava bem e, diante do silêncio, concluiu: "É, se o tio dele não é lá aquelas coisas, porque ele seria?". Na verdade, o forte desse povo é a animação, o pique e o carisma, nenhum deles é um super músico...


Eita povo animado!

A galera na festa pra mim não tinha muita diferença da galera que vi na Banda Eva em Piracicaba, festa do mesmo estilo. Isso falando do tipo de gente, da animação, etc. Criatividade nas roupas, animação, gente doida pra beber, pular e beijar na boca. Percebi, mais uma vez, que não é esse o meu tipo de festa. Quero dizer, vou, curto, mas não me sinto à vontade como em um barzinho jogando conversa fora...

Não ficamos até o fim da Kelsh. Pedimos da rua, no caminho de casa, uma portuguesa grande da pizzaria Pinóquio, que comi quase inteira porque o Thomaz capotou logo depois do banho e mal experimentou. Falando em comer (e o próximo post vai falar muito de comida), toda essa comilança me rendeu um ganho de 1,5kg, o que não é pouco, mas também não é muito, considerando que nas férias de Julho, em Piracicaba, eu provavelmente engordaria também, afinal só faço comer e dormir nessa época...

Mudando de assunto, aqui tem muitas dessas bancas de CD/DVD pirata. Tive a oportunidade de usufruir de algumas dessas aquisições. Uma delas é um CD que fica no carro, chama MPB MP3 e tem 428 faixas. É o que to copiando agora na Lan House e de onde ouço no momento Caetano, Gil, Leoni e Geraldo Azevedo. Muito bom! Também vi dois filmes, um que a mãe do Thomaz comprou, que chama Sedução, e apesar de bem feito tem um roteiro meio doentio. A história se passa em um internato de meninas.

O outro foi um documentário que acompanha um pastor evangélico (ex-traficante), policiais e traficantes nas favelas cariocas. Na capinha do piratão está escrito Rio Favela. Procurando agora pela internet descobri que o diretor, Jon Blair, é inglês, e que o filme tem o nome oficial de Dançando com o Diabo, que surgiu de uma das falas do pastor explicando sobre como desistiu do tráfico: "Percebi que tinha duas alternativas: caminhar com Deus ou dançar com o diabo", disse o pastor Dione, em uma das primeiras cenas do filme.

O acesso do pastor nas favelas comandadas pelos diferentes traficantes é impressionante, e ele tem acordo de trégua com todos eles, o que permitiu à equipe de cinegrafistas estrangeiros gravar todos os depoimentos. Tem histórias impressionantes, carregadas de violência, e retrata um Rio de Janeiro muito famoso depois de Cidade de Deus, só que no caso não é ficção, mas um retrato da realidade. A camisa do Flamengo de um dos bandidos, bem atual, nos dava indícios de que o filme era bem recente, e descobri agora que ele estreou no Festival de Cinema do Rio de Janeiro no ano passado. A última informação que achei na internet é da época do festival, e revelava que os produtores procuravam um meio de distribuí-lo no Brasil. Não sei se existe um meio oficial de distribuição, mas os camelôs de Ilhéus já tem...

Ah sim, e pra não dizer que saí daqui sem nenhum machucado: ontem raspei a perna descendo do carro. Não to falando isso pra fazer drama, mas pra compartilhar com vocês uma constatação de utilidade pública a que chegamos. Nas palavras de Thomaz: "a Strada cabine dupla foi feita pra caber pessoas no banco de trás, mas não foi feita para que essas pessoas entrem ou saiam de lá!" Resumindo, é um parto entrar e sair no banco de trás daquele carro. A sorte é que por ser grande acabei ganhando o banco da frente na maioria das vezes em que estava de passageiro...

Palavrinhas:

Lá ele: pra mim é uma interjeição de surpresa ou incredulidade, mas o Thomaz talvez possa esclarecer melhor...

Botar pocando: o pocar você já conhecem, mas botar pocando é o mesmo que "botar pra fuder" ou pra "ferver", como diria o KLB...

Vou parar por agora no sábado e deixar pra falar sobre o domingo mais tarde.


"Ela me deu um vale-night, ô ô Ô"; violência na TV e chuuva!


Desde a chegada do Botão à Bahia a chuva não foi grande problema, em Uruçuca não fazia muita diferença já que a gente bebeu do mesmo jeito. Quando fomos à praia - coincidência! - também não encontramos com a danada. Mas no sábado, Ilhéus só fazia chover e chover e chover. Minha tese sobre "cidade papel crepon" se confirmou outra vez e isso serve para a maioria das cidades praieiras com mais de dois séculos de existência. Quem foi ao Rio ou Salvador vai perceber que o fenômeno é o mesmo.

Enfim (lê-se anfãn), cruzamos com a bicha (xii) no sábado e que bom que foi no Trivela, pois quando a festa começa ninguém nota se há chuva, neve, merda de pomba ou qualquer outra coisa, é incrivel.

Aliás, o Botão me perguntou se havia chovido durante o show, "no que eu fui choveu", foi a resposta. Pouco a acrescentar sobre a descrição da festa, quem freqüenta esses shows é parecido no mundo inteiro. E o Asa é bom, muito bom, não tem nenhum virtuose das guitarras ou grandes vocalistas, mas me parece que a banda tem a fórmula ideal para animar uma festa. O espírito das pessoas que estão lá também contribui muuuito.

Como a gente se perdeu (duas vezes), resolvemos curtir à nossa maneira e ficamos com poucos casos em comum para comentar. Essas festas em Ilhéus sempre são engraçadas pra mim, pois encontro pessoas que não lembram do meu nome ou de mim e quando reconheecem emendam um "pooooooooorrrrrrraaa, você tá diferente pa caraalho!" e dessa vez não fugiram à regra. O bom é que pude me desculpar com alguém a quem devia escusas há uns nove anos e vi um grande amigo de minha irmã na época da escola e que, por tabela, se tornou um grande amigo meu também. Além de primos, conhecidos, etc.

Quanto ao vale-night, eu e o Botão conhecemos uma menina que usa vale-night. O detalhe é que ela e o namorado estavam na mesma festa quando o acordo passou a vigorar e invariavelmente eles devem ter se encontrado durante o furdunço. Querem saber se deu certo? Lóógico! Esse negócio de ciúmes tá virando passado.

Trocando em miúdos: "Lá ele" é similar a "Deurmelivre", "vôte", "cê tá doido?", etc. e há o adicional de "oxi, lá ele!". Os baianos estão lendo podem me ajudar, acrescentem aí nos coments.

P.S.: Ouçam Leoonii, "Alice não me escreevaaa, aquela carta de amoorr" e por aí vai. Botão falou em "Táxi Lunar", mais Geraldo Azevedo, e Asa de Águia (WHY NOT?). No próximo comento sobre o DOC, ficou grande demais.

P.S. 2: Eu quero deixar claro que além dos familiares que coloquei no texto "viva o povo baiano" existem outros que amo igualmente, como tio Nado, tio Harley e tia Ivana. Amo meus primos e amo demaaaaaaiiiiiiisssss meu sobrinho e afilhado Enzo, que ainda não me ensinou muita coisa, uma vez que só fala "mamãe e papai", e ainda assim nos momentos de maior apelo.

Um beijo e um queijo.



quarta-feira, 14 de julho de 2010

Cultura em Ilhéus

Ontem acordamos na hora do almoço, aquele que seria na casa de dona Mirinha, a outra avó do Thomaz, mãe de Volney. No cardápio, carne de sol e pirão de leite novamente, um delicioso pudim de sobremesa, e a novidade do dia: galinha ao molho pardo. Maravilha!

O engraçado desse prato foi que anteontem tinha ouvido a história, da boca de Dr. Ronaldo, desse prato que me aguardava no almoço. Cabe contar a vocês: o filho dele, Ronaldinho, tio de Thomaz que ainda não conheci, quando morava em São Paulo, decidiu fazer a tal galinha para o pessoal que morava na república dele. Lá estava ele fazendo o molho pardo quando, ao misturar o sangue da galinha (base do molho), com vinagre, obteve um caldo negro, cor que tem o molho quando pronto. Eis que um dos que moravam com ele, ao ver o milagre da mudança de cor, saiu gritando "macumba, macumba!", e não houve jeito de fazê-lo comer a galinha. Olha, azar o dele, porque é realmente boa!

Ficamos com dona Mirinha assistindo a um capítulo "inédito" de Sinhá Moça, como diria Galvão. Soubemos que a vinda pra Ilhéus tinha sido cancelada, porque a casa ainda não tinha fogão. Mas pra que eu e Thomaz precisamos de fogão? Viemos pra cá apenas nós, de carona com um colega de Volney.

À noite, minha primeira experiência com moto-táxi, porque estávamos atrasados para o teatro, beirou o desastre. Se minha cabeça fosse apenas proporcional ao corpo, já seria grande demais pro capacete. Mas ela faz ainda questão de ser um pouquinho maior, e só conseguia ver por metade da viseira daquele capacete que, se eu caísse de cabeça, não protegeria nada. Fui na garupa do menor dos motoqueiros, e Thomaz na outra. Não tenho costume de andar de moto, a última vez que andei deve ter sido há uns bons anos. Quase tive cãibra de segurar naquela garupa. Sorte que foram poucos os minutos de horror.

Passada a experiência traumática, fomos à Casa dos Artistas, o Ponto de Cultura que comentei. No teatro popular, ontem era dia de Teatro a 2, em alusão aos R$ 2 que custava a entrada. A peça Teodorico Majestade - As Últimas Horas de Um Prefeito, do Teatro Popular de Ilhéus, grupo residente da Casa dos Artistas. Soube agora, ao procurar na internet que a peça, escrita e dirigida por Romualdo Lisboa, é apontada como responsável por revolucionar o teatro daqui, já teve temporada em Salvador e vai ainda esse ano ao Rio de Janeiro.

Lá fora, o cartaz do espetáculo. Coisa de primeira

A comédia fala de um prefeito corrupto, Teodorico Majestade, que rouba aos montes na cidade fictícia de Ilha Bela, sempre com a desculpa de querer recuperar o dinheiro investido na campanha, recheada de compra de votos, como se a reivindicação fosse legítima.

Cabe aqui comentar o Ponto de Cultura em si, que é muito parecido com os de Piracicaba. O tipo de gente que freqüenta é muito semelhante, formado por estudantes, artistas, jornalistas, professores e interessados na cultura em geral. Apesar de apresentada exaustivamente por aqui, a peça encheu os 50 lugares do teatro, e a qualidade do grupo e da casa são realmente impressionantes.

Como em Piracicaba, finalizado o espetáculo várias pessoas foram cumprimentar os artistas, que são locais, como percebo acontecer em todas as apresentações em palcos mais alternativos que já vi. Concluí que a gente ligada à cultura tem rosto parecido em todos os lugares, e quando comentei isso com o Thomaz ele acrescentou rindo: "com pequenas variações no bronzeado..."

Do teatro, fomos ao Vesúvio, aquele que coloquei foto no dia da visita turística em Ilhéus. Por lá comemos bolinhos de queijo, charque (carne-seca), bacalhau, e quibes, além de derrubar uma torre de chopp, neste que foi o primeiro lugar em que comi/bebi por aqui e me cobrou preço de turista, já que em Uruçuca era tudo muito barato. Bela noite ao som de músicos também locais, que tinham repertório com músicas realmente muito boas, como Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Belquior, e aquelas músicas que sempre tocam em bar, e a estranha mania de começar as canções pelo refrão.

Saindo dali, mandamos um sorvete Cruz Vermelha no Ponto Chic e voltamos caminhando pela praia, não sem antes sentar um pouco na areia para admirar a brisa. Noite agradabilíssima. De volta ao apartamento, terminei Pastores da Noite, em que Jesuíno Galo Doido morreu, e comecei a ler O Anjo Pornográfico, e descobri que, embora não dê pra comparar, o Ruy Castro é gostoso de ler como o Jorge Amado. Ah sim, antes de dormir ainda perdi pro Thomaz no xadrez duas vezes, em um jogo disputado e uma lavada.


Thomaz e o Cruz Vermelha

Agora estamos de boréstia aqui por Ilhéus, e vamos à noite ou amanhã cedo pra Porto Seguro, onde a mãe do Thomaz vai dar um curso para uns índios em Coroa Vermelha. Devemos ficar na cidade até sexta. Pra quem não sabe, de boréstia é o mesmo que de boa, e é a expressão baiana do dia. Com ela acrescento que o povo aqui fala muito "véi", que deve ser minha mania por um tempo depois que voltar, e que é costume chamar os outros de "moral". Do tipo: "Vamos pra onde moral?" (moto-táxi), ou "Tem um trocado aí moral?" (pedinte).

Agora tou ouvindo Cartola na Lan House enquanto escrevo a postagem. Tá um dia lindo lá fora e acho que vou tirar foto da praia enquanto o Thomaz escreve o cometário dele, pra vocês saberem do que tô falando...

A praia ao lado da Lan House, fotografada enquanto era escrito o comentário abaixo

Beijos


Um "banho de civilização" em Ilhéus (por Thomaz Fernandes)

Já havíamos visto o anúncio da peça e queríamos vê-la sem mesmo sabermos exatamente do que se tratava. Além do que o mais jovem entre os Botões disse sobre a história, pude identificar uma crítica ao ex-prefeito de Ilhéus (Ilha Bela), Valderico Reis (Teodorico Majestade, rá). Apesar de um tanto engajada, foi fantástico notar que ela pode ser apresentada a todos, mesmo os que não conhecem a história (haja vista o post do Botão).

Ontem conhecemos uma mulher que era surda e recuperou a audição por meio de prótese, eu falava com ela enquanto Iuri acompanhava ansiosamente o plano de Sinhá Moça para invadir a senzala da fazenda Araruna com o Irmão do Quilombo, rs.

Ontem conversávamos sobre a delícia que seria morar em Ilhéus, enquanto andávamos na praia da avenida. Uma pena que o lugar não oferece muito espaço para jornalismo, seria ótimo transformar aquela paisagem em cotidiano novamente e ganhar uma grana e sentir tesão profissionalmente.

Eu sempre tive um pé atrás com relação a Ilhéus no sentido de vida cultural, mas ontem tive a melhor impressão possível, pois curti um som gostosíssimo, vi uma boa peça que encheu a sala em plena terça-feira chuvosa que tivemos.

A frase mais dita ontem era: "Faltava aqui um par de costelas", maneira singela de dizermos que o lugar seria muito romântico caso houvesse presença feminina.

Além de fogão, a casa ainda não tem TV e ficamos ouvindo a rádio daqui, Gabriela FM, o programa que passava era "LLLooove Sooongs" e enquanto eu detonava Iuri no xadrez, ouviamos Gisele do bairro Conquista dizer para Marcos do Princesa Isabel que ela respeita "a velocidade com que as coisas estão indo, mas preciso de uma aproximação mais íntima, quero penetrar no seu peito", praticamente uma bala de fuzil.

Enquanto ele mata o pobre Jesuíno Galo Doido, leio "o Homem nu", de Fernando Sabino e "O livro dos sonetos" de Vinícius de Morais.

P.S.: Ouçam Gerônimo (o Botão curtiu) "É d'oxum", "Hotel California" e assistam ao documentário L.A.P.A, que eu assisto pelo Youtube enquanto o Botão escreve.